"O futebol foi inventado aqui!" – Essa frase, entoada pelo cantor florentino Lorenzo Baglioni, resume a alma do futebol em Florença. Mais do que um esporte, é uma parte intrínseca da identidade da cidade, com raízes que se aprofundam muito antes das regras britânicas que o popularizaram. O calcio storico, uma versão medieval brutalmente apaixonada, já indicava que o DNA do jogo já pulsava nas margens do Rio Arno.
As Raízes Históricas e o Nascimento Oficial
A gênese da Fiorentina, como a conhecemos hoje, remonta ao final do século XIX e início do século XX. O Florence Football Club, fundado em 1898, já reivindicava a ancestralidade florentina do esporte. Posteriormente, em 1912 e 1913, duas das mais antigas e renomadas associações esportivas da cidade, o Club Sportivo Firenze (fundado em 1870 para o ciclismo) e a Palestra Ginnastica Fiorentina Libertas (nascida em 1877 para a ginástica), estabeleceram suas próprias seções de futebol. Após a interrupção das atividades devido à Grande Guerra, uma intensa rivalidade se estabeleceu entre as duas equipes. Essa dualidade, no entanto, foi suprimida em um marco histórico: em 29 de agosto de 1926, o Marquês Luigi Ridolfi Vay da Verrazzano, presidente do Club Sportivo Firenze, orquestrou a fusão das seções de futebol de ambos os clubes, dando origem à Associazione Fiorentina del Calcio. Naquele dia, a Fiorentina nasceu oficialmente.
A Ascensão e os Primeiros Símbolos
Os primeiros anos da Fiorentina foram de rápida ascensão. A equipe, sob a batuta do treinador húngaro Károly Csapkay e com o defensor Árpád Posteiner como seu primeiro estrangeiro, começou sua jornada no estádio da via Bellini em 1926/1927. O atacante Rodolfo Volk se destacou como o primeiro grande artilheiro, marcando o primeiro gol oficial da história do clube em 3 de outubro de 1926, em uma vitória por 3 a 1 sobre o Pisa.
A identidade visual da Fiorentina também se consolidou rapidamente. Em 22 de setembro de 1929, o icônico uniforme roxo foi adotado – uma escolha deliberada do presidente, e não um acidente de lavagem como a lenda popularizava, refletindo a admiração pelo Újpest húngaro. O ano de 1930 marcou um ponto de virada com a promoção à Série A, conquistada após um empate em primeiro lugar com o Bari.
A década de 1930 viu a Fiorentina brilhar ainda mais, com seu belo estilo de jogo e a inauguração do grandioso estádio Giovanni Berta (hoje Artemio Franchi) em 1931, uma obra-prima de engenharia. O estádio, com sua atmosfera vibrante, presenciou a ascensão de estrelas como o uruguaio Pedro Petrone, apelidado de "Artillero", que marcou 25 gols em 27 jogos na temporada 1931-32, consolidando a Fiorentina como uma força nacional. Em 22 de novembro de 1931, antes de um jogo contra a Roma, as notas da "Canzone Viola", composta por Marcello Manni e Marco Vinicio, eternizada por Narciso Parigi, ecoaram pela primeira vez, tornando-se o hino oficial do clube.
O Primeiro Título e o Capítulo Europeu
A década de 1940 trouxe o primeiro grande troféu para a galeria viola. Sob a direção do técnico austríaco Rudolf Soutschek, e posteriormente de Giuseppe Galluzzi, a Fiorentina, com uma equipe reforçada, conquistou a Coppa Italia de 1940. A jornada foi memorável, com vitórias expressivas sobre gigantes como Milan e Lazio, e uma semifinal emocionante contra a Juventus, culminando na vitória sobre o Genoa 1893 na final.
O verdadeiro auge, contudo, viria na década de 1950. Após a reconstrução pós-Segunda Guerra Mundial, a Fiorentina, liderada pelo visionário técnico Fulvio Bernardini e com a inclusão de talentos como Giuseppe Chiappella, Armando Segato, Maurilio Prini, o artilheiro Giuseppe Virgili e o goleiro Giuliano Sarti, formou uma equipe vitoriosa. Em 1954, em um episódio que se tornou folclórico, um famoso avistamento de OVNIs durante um amistoso no estádio Comunale fez com que os jogadores e torcedores olhassem para o céu, e a lenda diz que "os marcianos logo se tornariam aqueles onze viola do primeiro tricampeonato histórico". Em 1956, a Fiorentina, invicta por grande parte da temporada e com o brasileiro Julinho brilhando intensamente, conquistou seu primeiro scudetto com cinco rodadas de antecedência, um feito inesquecível para Florença.
O título italiano abriu as portas da Europa, e em 1957, a Fiorentina fez história ao se tornar a primeira equipe italiana a disputar uma final da Taça dos Campeões. No imponente Santiago Bernabéu, diante de 125.000 espectadores, enfrentaram o Real Madrid de Alfredo Di Stéfano. Apesar da derrota por 2 a 0, com gols controversos de pênalti, a atuação viola foi elogiada, mostrando que o clube estava à altura dos maiores palcos do continente.
Consolidação Europeia e Mais Títulos Nacionais
Os anos seguintes confirmaram a vocação europeia da Fiorentina. Sob o comando do húngaro Lajos Czeizler, a equipe de 1958-59, com Hamrin e Lojacono, jogava um futebol ofensivo e espetacular, embora a liderança no campeonato tenha escapado nas últimas rodadas. No entanto, o ápice veio em 1961: a Fiorentina conquistou a primeira edição da Taça dos Vencedores de Taças ao derrotar o Rangers de Glasgow na final, com dois gols de Luigi Milan no jogo de ida. Duas semanas depois, a Fiorentina também garantiu a Coppa Italia contra a Lazio, encerrando a temporada 1960-61 com dois prestigiados troféus.
A década de 1960 seguiu com mais sucessos. Embora a defesa da Taça dos Vencedores de Taças tenha escapado em 1962 na final contra o Atlético de Madrid, a Fiorentina manteve-se no topo. Com Giuseppe Chiappella como técnico e a ascensão de jovens como Brizi e Ferrante, além de Hamrin que chegou a marcar cinco gols em um único jogo, a equipe adicionou mais duas taças em 1965-66: a Coppa Italia (sua terceira) e a Mitropa Cup. A vitória na Coppa Italia foi emblemática, com uma semifinal dramática contra a Internazionale de Helenio Herrera, decidida por um gol de Hamrin no último minuto.
O ponto culminante da década foi o segundo scudetto, na temporada 1968-69. A "Fiorentina Yé-Yé", treinada pelo argentino Bruno Pesaola, não era a favorita, mas surpreendeu a todos. Com vitórias apertadas e um futebol taticamente disciplinado, a equipe, com Chiarugi, Merlo e Maraschi, assumiu a liderança definitiva na 21ª rodada. A vitória decisiva sobre a Juventus em Turim na penúltima rodada, com mais de dez mil torcedores viola presentes, garantiu o título após 13 anos do primeiro, levando Florença à loucura em uma festa inesquecível.
Altos e Baixos Pós-Scudetto e a Era Batistuta
As décadas de 1970 e 1980 foram de oscilações para a Fiorentina. O scudetto de 1969-70 foi seguido por uma temporada irregular. No entanto, o clube continuou a ter momentos de glória, como a histórica vitória em Kiev pela Taça dos Campeões e a conquista da quarta Coppa Italia em 1975, com uma vitória sobre o Milan na final, com gols de Casarsa, Guerini e Rosi. Nomes como o brasileiro Clerici e o jovem talento Giancarlo Antognoni emergiam, prometendo um futuro brilhante.
A década de 1980 marcou a chegada da família Pontello e a reabertura das fronteiras para estrangeiros, trazendo craques como o zagueiro argentino Daniel Passarella, recordista de gols para um defensor, e o talentoso brasileiro Sócrates. A temporada 1981-82 ficou marcada por um "quase scudetto", perdido na última rodada para a Juventus, gerando grande frustração entre os torcedores. Posteriormente, a chegada de Roberto Baggio em 1985 (com um início conturbado por lesões) e o ciclo de Sven-Göran Eriksson trouxeram esperança, formando a dupla Baggio-Borgonovo que encantou o futebol italiano. O clube também alcançou a final da Copa da UEFA em 1990, perdendo para a Juventus, em um jogo que marcou a despedida de Baggio antes de sua polêmica transferência para o rival.
A década de 1990 foi dominada pela figura de Gabriel Batistuta. Mesmo com um rebaixamento à Série B no início da era Cecchi Gori, o retorno foi imediato sob o comando de Claudio Ranieri. A equipe, reforçada por Toldo, Rui Costa, Schwarz e Baiano, viveu um período de ouro, conquistando a quinta Coppa Italia em 1996, com uma campanha impecável de oito vitórias em oito jogos. No início da temporada seguinte, a Fiorentina surpreendeu ao vencer a Supercopa Italiana de 1996 contra o Milan, com dois gols de Batistuta, quebrando um tabu e consolidando seu status de ídolo.
O final da década trouxe as tão esperadas "noites de Champions League". Com Trapattoni no comando e a chegada de jogadores como Edmundo e Chiesa, a Fiorentina brilhou na Europa, eliminando adversários e conquistando uma vitória épica contra o Arsenal em Wembley. Apesar de não avançar muito na competição, a campanha foi memorável. A sexta Coppa Italia veio em 2001, com Roberto Mancini no banco, em uma vitória emocionante sobre o Parma, selada por um gol de Nuno Gomes.
O Renascimento e o Retorno à Relevância
O início do século XXI trouxe o maior desafio da história da Fiorentina: a falência em 2002. Após 76 anos de glórias, a Associazione Calcio Fiorentina encerrou suas atividades, e os jogadores foram liberados. No entanto, o amor pelo futebol em Florença era forte demais para permitir o fim. Em 1º de agosto de 2002, o prefeito Leonardo Domenici fundou a Fiorentina Viola, adquirida pelos empresários Diego e Andrea Della Valle. O clube renasceu, recomeçando da Série C2, sem estrutura, mas com a inabalável paixão de sua torcida, que garantiu quase 20.000 sócios mesmo na quarta divisão. Com o capitão Angelo Di Livio e o artilheiro Christian Riganò, a "Florentia Viola" iniciou sua meteórica ascensão, culminando com o retorno à Série A em menos de 23 meses após a falência, com a liderança de Emiliano Mondonico e gols decisivos de Enrico Fantini no playoff contra o Perugia.
O quinquênio 2005-2010, sob a batuta do técnico Cesare Prandelli e do diretor esportivo Pantaleo Corvino, marcou um novo período de satisfações. Com talentos como Frey, Luca Toni (que marcou 31 gols em uma temporada) e Adrian Mutu, a Fiorentina chegou à qualificação para a Champions League. Contudo, o escândalo do Calciopoli impôs uma penalidade de 30 pontos (depois reduzida para 15), tirando o direito da Fiorentina de disputar a competição europeia e forçando um "milagre esportivo" na temporada seguinte, onde o time conseguiu se classificar novamente para a Europa, mesmo com a punição.
A década de 2000 também viu a Fiorentina brilhar novamente na Liga dos Campeões. Após superar o Sporting nos preliminares, o time de Prandelli, com Alberto Gilardino e Stevan Jovetić, venceu seu grupo, com vitórias memoráveis sobre o Liverpool em Anfield. A jornada europeia, porém, terminou nas oitavas de final contra o Bayern de Munique, em meio a erros de arbitragem e lances geniais de Robben.
A Reconstrução e o Futebol "Champagne"
O biênio 2010-2012 foi de dificuldades, mas o verão de 2012 marcou uma nova e positiva guinada, com as chegadas do diretor esportivo Pradè, do diretor técnico Macia e, principalmente, do técnico Vincenzo Montella. A filosofia era clara: resgatar o futebol-arte e reconectar a torcida ao time. Uma verdadeira revolução no mercado de transferências trouxe jogadores ideais para o novo estilo de jogo focado em técnica e posse de bola: Gonzalo Rodríguez, Savić, David Pizarro, Borja Valero, Cuadrado, Matías Fernández, e o emocionante retorno de Luca Toni.
O "futebol champagne" de Montella rapidamente produziu resultados, encantando os torcedores e reafirmando o lugar da Fiorentina entre os grandes do futebol italiano. A história da Fiorentina é, portanto, uma tapeçaria rica em glórias, superações e uma paixão inabalável que continua a mover a cidade e seus tifosi. É a prova de que, para Florença, o futebol é muito mais do que um jogo: é uma parte viva de sua alma.
Fiorentina e a Conference League: Entre o Resgate da Tradição e a Frustração de um Quase
A Fiorentina teve campanhas marcantes nas últimas edições da UEFA Conference League, chegando às finais de 2022/2023 e 2023/2024, mas ficando com o vice-campeonato em ambas — contra West Ham e Olympiacos, respectivamente. Sob o comando de Vincenzo Italiano, a equipe se destacou por um futebol ofensivo e consistente, com jogadores como Nico González e Arthur Cabral sendo protagonistas. Apesar da frustração pelas derrotas nos momentos decisivos, a Viola resgatou sua relevância no cenário europeu e reafirmou seu potencial para voltar a conquistar títulos internacionais.
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