O futebol italiano já não fala apenas italiano. O ano de 2025 marca um ponto de inflexão histórico, onde a maior parte dos clubes profissionais, mais da metade entre Série A e Série B, está sob controle de investidores estrangeiros. Essa "invasão" de capital, majoritariamente vindo dos Estados Unidos, mas também do Canadá, Indonésia e Romênia, reconfigura o mapa de poder do Calcio, transformando-o em um ativo global de investimento.
A transformação é mais evidente na elite. Atualmente, 11 clubes da Serie A — incluindo gigantes como Milan e Inter — estão nas mãos de proprietários internacionais. O controle vai desde consórcios como o de Stephen Pagliuca (Bain Capital) na Atalanta, até o domínio total da RedBird Capital Partners (EUA) no Milan e do grupo Friedkin (Toyota USA) na Roma.
A Lista de Proprietários Estrangeiros na Serie A (Destaques):
O cenário na primeira divisão é dominado pelo capital americano. A Roma é integralmente do grupo Friedkin. O Milan é controlado pela RedBird, e a Inter pertence ao fundo Oaktree. Outros nomes de peso incluem Rocco Commisso (Mediacom, EUA) na Fiorentina e a presença canadense de Joey Saputo no Bologna.
Entretanto, o interesse é diversificado geograficamente. A família indonésia Hartono, com um patrimônio estimado em 50 bilhões de dólares, controla o Como, enquanto o romeno Dan Șucu (Mobexpert) detém 77% do Genoa. A Hellas Verona, por sua vez, está 100% nas mãos da Presidio Investors (EUA). Essa variedade atesta a atratividade global do Calcio, que transcende as fronteiras europeias.
Da Elite ao Meio da Tabela: A Nova Fronteira de Investimento
Historicamente, o capital estrangeiro se concentrava em grandes centros como Milão e Roma. A nova e crucial tendência é a expansão para as realidades de médio e pequeno porte. A mais recente e simbólica transação foi a venda do Monza, da tradicional família Berlusconi (Fininvest), para o fundo americano Beckett Layne Ventures. Este movimento sinaliza que a Propriedade Estrangeira no Futebol Italiano vê valor não apenas no glamour da Série A, mas na lucratividade das divisões inferiores.
O principal motor dessa mudança é o custo de aquisição. A avaliação de clubes italianos, especialmente os rebaixados, é sensivelmente menor do que a de clubes de ligas como a Premier League ou La Liga. O exemplo do Monza é didático: o clube foi avaliado em cerca de 45 milhões de euros após o rebaixamento, menos da metade de seu faturamento de 2024, representando um "preço de entrada" muito acessível para os fundos.
Por Que a Série B é o Novo Alvo Estratégico?
Oito clubes na Série B, incluindo Palermo, Sampdoria e Spezia, já estão ligados a fundos ou investidores internacionais. A atração é baseada em uma clara lógica financeira, focada em estratégias de saída de 5 a 7 anos:
Valorização Através de Jogadores: A possibilidade de comprar o clube a baixo custo, investir na aquisição e desenvolvimento de jovens talentos, e vendê-los posteriormente com forte ganho de capital (plusvalia).
Activos Históricos e Regionais: A força de "cidades atraentes e torcidas sólidas" torna o investimento seguro, mesmo na segunda divisão, pois a base de consumo e a história do clube garantem um valor mínimo de revenda.
O Desafio dos Gigantes: Vencer e Equilibrar as Contas
Para os top clubs como Inter (Oaktree) e Milan (RedBird), a equação é mais complexa. O objetivo de vencer campeonatos e Ligas dos Campeões impõe a necessidade de "investimentos não sempre racionais" – altos salários e retenção de superestrelas.
Nesses casos, a solução de investimento estrangeiro Série A não se limita ao plantel. Os fundos estão apostando na modernização das receitas por meio de infraestrutura. O projeto do novo estádio de Milan e Inter é fundamental para aumentar o faturamento anual e, por extensão, o valor de mercado de ambos os clubes, garantindo a sustentabilidade em um ambiente altamente competitivo e financeiramente exigente.
O futebol italiano se transforma, abraçando as lógicas do business internacional. A onda de propriedade estrangeira é um fenômeno irreversível que visa a sustentabilidade e a lucratividade, redefinindo as prioridades e o futuro do Calcio nos próximos anos.
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