Hércules Meneses: A Trajetória de Gianluca Pagliuca: O goleiro que me transformou em Torcedor                                                                       

A Trajetória de Gianluca Pagliuca: O goleiro que me transformou em Torcedor


Da semelhança com o ícone do esqui Alberto Tomba à consagração como um dos maiores goleiros da história do futebol italiano, a trajetória de Gianluca Pagliuca é um épico de defesas espetaculares, momentos de glória e, claro, um beijo icônico em um poste que "salvou sua vida".

Nascido em Bolonha, no mesmo hospital e quase no mesmo instante que o esquiador Alberto Tomba, Pagliuca carregou por anos o apelido de "O Gêmeo". Mas seu destino estava traçado entre as balizas, e não nas pistas de neve. Desde cedo, o garoto de reflexos apurados e paixão pelo esporte se destacou, trocando a função de meia-atacante pela de goleiro, uma decisão que ele próprio considera sua maior sorte.

Para este autor, inclusive, Pagliuca não foi apenas mais um goleiro, mas sim o primeiro a realmente despertar uma admiração especial. Desde pequeno, nas 'peladas' intermináveis que tomavam as ruas, eu ia na contramão dos meus colegas: em vez de Taffarel, era o goleiro italiano quem verdadeiramente me inspirava. Na verdade, foi o Pagliuca, juntamente com toda a Seleção Italiana da Copa do Mundo de 1994, que acendeu a chama do meu interesse pelo futebol, transformando-me em um torcedor do futebol italiano.



O Beijo do Poste e o Quase Mundial:

Um dos momentos mais lembrados de sua carreira, e talvez um dos mais surreais da história das Copas do Mundo, aconteceu na final de 1994, nos Estados Unidos. Após um chute traiçoeiro de Mauro Silva escapar de suas mãos, a bola beijou a trave antes de retornar para seus braços. "Aquele poste me evitou muitos problemas", confessou Pagliuca anos depois. "eu seria massacrado pelo resto da carreira, como aconteceu com Zenga. Felizmente, todos se lembram do beijo e menos da falha…". A Itália acabaria perdendo a Copa nos pênaltis para o Brasil, mas o gesto de Pagliuca eternizou sua imagem.

Ascensão na Sampdoria e o Scudetto Inesquecível:

Sua jornada rumo ao estrelato começou pra valer na Sampdoria. Descoberto por Pietro Battara, seu mentor, e adquirido por 300 milhões de liras, Pagliuca rapidamente se consolidou como titular. Com a camisa blucerchiata, viveu o auge de sua carreira, conquistando a Coppa Italia e, em 1990/91, um histórico Scudetto. Naquele ano, sua defesa de um pênalti de Lothar Matthäus em um jogo crucial contra a Inter de Milão se tornou um símbolo da campanha vitoriosa. "Entre os pênaltis defendidos, é o que lembro com mais carinho", disse. "Era um confronto direto, e aquela vitória nos impulsionou rumo ao Scudetto, que para mim foi a maior alegria."

Apesar do sucesso, a carreira de Pagliuca também teve seus percalços. A derrota na final da Liga dos Campeões de 1992 para o Barcelona, com um gol de Ronald Koeman que ele considera "imparável", deixou uma ferida. "Quando entramos em campo em Wembley, pela primeira vez na minha carreira, minhas pernas tremeram de emoção", recorda. "Até o momento do gol na prorrogação, eu havia defendido o impossível: mas aquele chute de direita foi realmente imparável."

Uma Vida na Seleção e o Polemico Adeus à Inter:

Na seleção italiana, Pagliuca defendeu as cores azzurras em três Copas do Mundo (1990, 1994 e 1998) e duas Olimpíadas (1988 e 1996). Em 1994, apesar da expulsão histórica contra a Noruega (o primeiro goleiro a ser expulso em um Mundial), ele se recuperou e foi fundamental nas fases eliminatórias. Em 1998, na França, realizou um Mundial de alto nível, com defesas memoráveis, mas novamente a sorte não esteve a seu favor nas disputas por pênaltis.

A Inter de Milão foi o próximo capítulo de sua carreira. Contratado em uma megaoperação em 1994, viveu anos de altos e baixos, com trocas de treinadores e a conquista da Copa UEFA em 1997/98, ao lado de Ronaldo Fenômeno. No entanto, sua passagem pela Inter terminou de forma conturbada, com a chegada de Marcello Lippi, que preferiu Peruzzi e com quem Pagliuca tinha uma relação difícil. "Não foi uma escolha técnica", desabafou sobre sua saída. "Entre mim e Peruzzi não havia diferença naquele período, aliás, ele evidentemente não gostava de mim."



O Retorno para Casa e os Desafios até os 40:

Após a Inter, Pagliuca retornou ao seu Bologna natal, onde jogou por sete anos, vivenciando a emoção de semifinais de Copa UEFA e a dor de um rebaixamento. Mesmo em momentos difíceis, como quando torcedores adversários atiravam objetos, incluindo torneiras, ele manteve o profissionalismo e o amor à camisa.


Sua última aventura na Serie A foi com o Ascoli, onde, em 2006, superou o recorde de presenças na liga italiana para um goleiro, marca que só seria batida por Gianluigi Buffon em 2019. Ao se aposentar em 2007, aos 40 anos, Pagliuca era o segundo jogador com mais partidas na história da Serie A e o maior pegador de pênaltis, com 24 defesas, um recorde que seria superado por Samir Handanovic em 2020.

Gianluca Pagliuca, o "Gato de Casalecchio", não foi apenas um goleiro. Ele foi um personagem. Sua história é um testamento de resiliência, talento e uma paixão inabalável pelo futebol, marcada por um poste que, para ele, foi um divisor de águas e um eterno lembrete de que, no esporte e na vida, a sorte (e um bom goleiro) pode mudar tudo.


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