O Renascimento Azul e Branco: Como Sai das Cinzas para a Elite do Futebol Italiano
A trajetória recente do Como no futebol italiano é uma história de resiliência e ascensão, que culminou no tão desejado retorno à Série A. Após anos turbulentos na Série C, marcados por dificuldades financeiras e trocas de comando – sob as presidências de Antonio Di Bari, Amilcare Rivetti e Pietro Porro – o clube, comandado por Carlo Sabatini, conseguiu um lampejo de esperança ao vencer os playoffs de acesso, impulsionado pelos 18 gols de Simone Andrea Ganz. No entanto, a passagem pela Série B foi um desastre total, culminando em um rebaixamento com a equipe na lanterna durante toda a temporada, com três mudanças de técnicos e o uso de 41 jogadores.
Da Falência ao Brilho: A Chegada de Novos Investidores
A queda para a Série C trouxe consigo a falência, mas mesmo assim, sob a tutela do administrador judicial Francesco De Michele e do técnico Fabio Gallo, o Como surpreendeu com um honroso sétimo lugar. O cenário mudou com a aquisição do clube pela empresária Akosua Puni Essien, esposa do renomado jogador Michael Essien, que, contudo, não conseguiu sustentar o projeto, levando o Como a uma nova queda para a Série D em 2017/18, após uma não inclusão na liga.
A verdadeira virada veio em 4 de abril de 2019, com a chegada da SENT Entertainment Ltd., uma empresa britânica de mídia e entretenimento. A SENT trouxe estabilidade financeira e um plano ambicioso, focando em infraestrutura, nas categorias de base, no estádio e, claro, na equipe principal. O impacto foi imediato: o Como venceu a Série D com um recorde de pontos na temporada 2019/20, marcando o início de uma nova era.
A Ascensão Imparável: Da Série C à Glória na Série A
A temporada 2020-2021 viu o Como, agora Como 1907, superar os desafios da pandemia global e conquistar o título da Série C, garantindo o acesso à Série B. O clube manteve o ímpeto nas temporadas seguintes (2021-2022 e 2022-2023) na segunda divisão, até que, na temporada 2023-2024, realizou seu maior objetivo: o tão aguardado retorno à Série A.
Essa promoção é um marco histórico para a cidade de Como, famosa por sua beleza e paisagens, mas não tanto por seu futebol nos últimos anos. Embora o Como já tenha participado 13 vezes da Série A, revelando talentos como Vierchowod, Borgonovo, Matteoli, Zambrotta, Invernizzi, Fusi, Fortunato e Parolo, o clube havia caído no esquecimento, com poucas perspectivas de recuperação após sucessivas falências e desorganização.
Uma História de Superação e Ambição
O passado do Como é repleto de episódios inusitados, como a aparição de um suposto nobre, Raffaele Ciuccariello, que prometeu comprar o clube antes de desaparecer. A breve e frustrante passagem de Akosua Puni Essien em 2017, que culminou em outro rebaixamento, parecia selar o destino de um clube fadado ao esquecimento.
Contudo, os mesmos motivos que atraíram a família Essien – o potencial da cidade e a localização única do estádio – foram os que trouxeram a família indonésia Hartono dois anos depois. Com um patrimônio estimado em 35 bilhões de dólares, figurando entre os homens mais ricos do mundo, os irmãos Hartono adquiriram o Como com a visão de construir uma "história glamourosa" no que eles próprios descreveram como o estádio "com a posição mais fascinante do mundo".
A Gestão Visionária dos Hartono e o Toque de Fàbregas
Apesar do ceticismo inicial – uma vez que os irmãos Hartono, proprietários do conglomerado Djarum, delegando a gestão ao gerente indonésio Suwarso – a propriedade se mostrou não apenas rica em recursos, mas também em ideias e profissionalismo. Longe de serem um "show" para os torcedores italianos, que priorizam a vitória, a família Hartono demonstrou seriedade e foco, levando o Como da Série D à Série A entre 2018 e 2024.
Parte fundamental desse sucesso é a figura de Cesc Fàbregas. O ex-jogador de renome mundial não é apenas o treinador, mas o diretor do projeto técnico e futebolístico em 360 graus. Fàbregas, que adquiriu cotas do clube e convenceu o amigo Thierry Henry a fazer o mesmo (juntando-se ao ex-Chelsea Dennis Wise, CEO do clube), encerrou sua carreira como jogador vestindo a camisa azul antes de assumir comando das operações. Ele injetou uma mentalidade ambiciosa e profissional, elevando constantemente o nível de exigência.
A mudança de Moreno Longo por Fàbregas no banco, no outono passado, mesmo com Longo fazendo um bom trabalho, foi um sinal claro da nova ambição: os playoffs não eram mais suficientes; o objetivo era a Série A, e de forma imediata.
O Estádio Sinigaglia e o Futuro Ambicioso
Além dos resultados em campo, a gestão do Como tem se dedicado a criar um forte vínculo entre o clube e a cidade. O estádio Sinigaglia, que hoje comporta apenas 7.500 pessoas, tornou-se um ponto de peregrinação para fãs estrangeiros, que vestem a camisa do Como e visitam o local, que, apesar de sua aparência "remendada" para a Série A, é agora considerado um dos estádios mais fascinantes do mundo para se assistir a uma partida.
O futuro do Como parece ainda mais promissor. A sociedade tem a ambição de se aproximar da Europa nos próximos três anos e planeja apresentar um projeto para um novo estádio, totalmente autofinanciado, no lugar do antigo Sinigaglia. A meta audaciosa, e talvez um tanto "bombástica", é que "Como se torne o principal destino do turismo futebolístico do mundo". Uma visão que, dadas as conquistas dos últimos cinco anos, muitos nas margens do Lago Como já estão começando a acreditar.



0 Comentários
Deixe o seu comentário ou sugestão. Sua opinião é importante.