A história da Virtus Entella, clube de Chiavari, na Ligúria, é um fascinante retrato do futebol italiano, marcado por momentos de glória, superação de adversidades e uma profunda conexão com sua comunidade. Fundada em 1914, a Entella surgiu da visão de jovens notáveis de Chiavari, que buscavam dar à cidade um time de futebol, um símbolo de modernidade e identidade. Ao longo das décadas, o clube se firmou não apenas regionalmente, mas como um ponto de referência para a vasta população do interior que gravitava em torno de Chiavari e do rio Entella.
Após períodos de destaque no futebol profissional nos anos 60 e 80, o clube enfrentou um lento e doloroso declínio, culminando em falência e esquecimento. No entanto, a chama biancoceleste foi reacendida por empresários locais, e a partir de 2007, sob a liderança do presidente Antonio Gozzi, a Entella iniciou uma notável caminhada de renascimento. Gozzi, um empresário visionário, percebeu o potencial da marca e investiu pesadamente no relançamento do clube.
A gestão Gozzi foi sinônimo de ascensão meteórica. Em apenas três anos, o Entella escalou da Eccellenza à Lega Pro – Seconda Divisione. A temporada 2011/12 marcou a chegada à final dos playoffs para a Lega Pro 1, e a subsequente repescagem garantiu o acesso. O clube não apenas subia de divisão, mas também investia maciçamente em suas categorias de base e escola de futebol, aumentando o número de inscritos para 350 e conquistando títulos nacionais como o de Campeão Juniores (2009/10) e Berretti (2010/11), provando que o futuro da Entella estava sendo construído de forma sólida.
O sonho da Série B, que parecia distante, tornou-se palpável. A temporada do Centenário (2013/14) foi coroada com a histórica promoção à Série B. Um primeiro turno avassalador, seguido por um momento de cansaço e a temida "síndrome de campeão", foi superado com uma vitória épica de virada contra o Cremonese, selando o acesso e a celebração de um século de história.
A primeira experiência na Série B (2014/15) foi de aprendizado, terminando em rebaixamento nos playouts, apesar de vitórias notáveis contra futuros promovidos à Série A e empates em estádios históricos. A lição foi dura, mas valiosa. A Entella, beneficiada pela readmissão em 2015/16 devido a irregularidades de outro clube, mostrou-se mais madura. A segunda temporada na Série B foi um sucesso, com a equipe terminando em 9º lugar, a apenas um ponto dos playoffs, e a base crescendo exponencialmente, atingindo 500 atletas e a Primavera chegando às Final Eight do Campeonato Italiano, solidificando o status de revelação do futebol juvenil italiano.
As temporadas seguintes trouxeram novos talentos, como a estreia de Nicolò Zaniolo na Série B pela Entella em 2016/17, um prenúncio de sua futura carreira internacional. A Primavera continuou a brilhar, alcançando uma histórica final da Coppa Italia Primavera contra a Roma, confirmando a força das categorias de base.
O ano de 2018/19 foi um dos mais emblemáticos. Após um limbo de incerteza sobre sua categoria, o Entella, sob o comando de Roberto Boscaglia, realizou uma corrida espetacular na Lega Pro, vencendo seis jogos consecutivos e jogando a cada três dias. A virada para a liderança e a dramática promoção de volta à Série B no último minuto da última rodada, com um gol de Mancosu, demonstram a resiliência e o espírito de luta do clube. Esse período também destacou a filosofia "empresarial" de Gozzi: investimento em estrutura, foco na base, organização eficiente e envolvimento da cidade. Os resultados foram além do campeonato: uma campanha histórica na Coppa Italia, eliminando o Genoa na Marassi em um jogo épico e alcançando as oitavas de final contra a Roma, além de títulos na base (Berretti e Supercopa) e a inédita vitória no campeonato de quarta categoria (para atletas com deficiência), reforçando o caráter inclusivo do "projeto Entella".
A temporada 2019/20, marcada pela interrupção do Coronavírus, viu o Entella na Série B começar de forma avassaladora, liderando o campeonato. Apesar de uma queda natural, a equipe se salvou matematicamente na penúltima rodada, com uma vitória crucial sobre o Empoli. A saída de Boscaglia e a chegada de Bruno Tedino marcaram um novo ciclo, mas a temporada 2020/21 foi desafiadora, culminando em um novo rebaixamento para a Série C. No entanto, a aposta em Gennaro Volpe, ícone do clube, como técnico principal, e a valorização de jovens da base, como Meazzi e Villa, sinalizaram um retorno às origens.
Nas temporadas 2021/22 e 2022/23, o Entella buscou a reconexão com a cidade e a volta à Série B. O time de Volpe demonstrou grande solidez em casa, batendo recordes de vitórias consecutivas na Série C. Campistas ofensivos como Merkaj e Schenetti brilharam. As campanhas nos playoffs foram marcadas por viradas emocionantes contra Gubbio e confrontos épicos com Foggia e Palermo, demonstrando a garra do time. Apesar de não conseguir o acesso direto ou via playoffs em 2022/23, com um recorde de 79 pontos na Série C e uma eliminação dramática contra o Pescara de Zeman, a Entella solidificou sua posição como um dos principais clubes da terceira divisão italiana, sempre com o olhar fixo no retorno à Série B e à promoção de novos talentos. A saga da Virtus Entella é uma prova de que a paixão e a resiliência podem superar qualquer adversidade no futebol.



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