Hércules Meneses: Itália à beira do abismo: o silêncio de Gravina e o grito do torcedor                                                                       

Itália à beira do abismo: o silêncio de Gravina e o grito do torcedor


O futebol italiano vive mais um momento dramático de sua história recente. A sombra de um novo fracasso paira sobre a Azzurra, e o temor de ficar fora de uma Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva transformou-se em pesadelo coletivo. A seleção que já foi sinônimo de tradição, tática e glória hoje caminha sobre o fio da navalha — e a figura de Gabriele Gravina, presidente da FIGC, tornou-se o símbolo de uma crise que parece não ter fim.

O país do catenaccio, agora, refém da paralisia

A cada tropeço, a cada empate insosso, cresce a sensação de que o futebol italiano perdeu o rumo. A Itália, tetracampeã mundial, hoje se vê lutando por um segundo lugar em um grupo dominado pela Noruega, comandada por Haaland — uma inversão simbólica que ilustra perfeitamente a decadência do Calcio. O fantasma dos playoffs, aquele caminho tortuoso que em 2017 e 2021 transformou esperança em vergonha, volta a rondar Coverciano como um lembrete cruel do passado recente.

A pergunta que ecoa nas redações, nas arquibancadas e nos cafés é direta e incômoda:
“O que será preciso para Gabriele Gravina deixar o cargo?”
 A ausência na Copa de 2026? Será necessária uma nova eliminação na Fase de Grupos do Mundial? Ou bastará uma queda nas oitavas de final para se admitir que a gestão fracassou?


Um dirigente imóvel diante do colapso

O semblante frio de Gravina nas tribunas, a expressão quase marmórea, tornou-se o retrato da inércia. Diante do caos técnico, o presidente prefere o silêncio. Sai dos estádios sem falar com a imprensa, como se ignorar a realidade fosse solução. Enquanto isso, a Azzurra se desintegra em campo, prisioneira de improvisos e trocas constantes de treinadores — agora sob o comando de Gennaro Gattuso, o terceiro técnico em um tempo não tão grande.
O problema, porém, vai muito além do banco de reservas. Falta planejamento, falta direção e, sobretudo, falta coragem para reformar as bases de um sistema engessado, que resiste a abrir espaço para jovens italianos e continua a depender de estrangeiros para sustentar clubes em crise de identidade.

O contraste com o passado é inevitável. Giancarlo Abete caiu em 2014, Carlo Tavecchio em 2017 — ambos diante de fracassos menores que o atual. Gravina, contudo, resiste, sustentado por alianças políticas e pela própria estrutura burocrática que o mantém no poder. Sua reeleição recente, longe de representar renovação, apenas consolidou um modelo ultrapassado.



Um país em alerta, um povo descrente

Em Milão, Roma ou Nápoles, o sentimento é o mesmo: descrença. O torcedor italiano, que cresceu vendo a Azzurra desafiar gigantes e erguer troféus, agora se vê diante da mediocridade e da apatia. As arquibancadas, antes templos da paixão, tornaram-se espaços de protesto. Há uma sensação generalizada de que o futebol italiano, outrora referência mundial, está de joelhos diante da própria omissão.

Analistas falam em “ponto de não retorno”. E não é exagero. A cada fracasso, o prestígio da camisa azul se esvai. O que antes inspirava respeito, hoje inspira compaixão. O medo de um triplo vexame mundial é mais que simbólico: é a prova de que o sistema falhou por completo — na formação, na gestão, na visão de futuro.




Entre a vergonha e a esperança

O mais assustador para os italianos não é perder. É perder o sentido de grandeza. A Itália de 1982, de 2006, aquela que se reinventava nas adversidades, parece distante. Hoje, falta liderança, falta identidade, falta um projeto que resgate o orgulho nacional.
E é por isso que a cobrança sobre Gravina vai muito além do resultado em campo. Trata-se de responsabilidade institucional. Não basta trocar técnicos, fazer discursos ou posar para fotos. O futebol italiano exige reformas profundas: incentivo aos jovens, políticas de base, limite ao uso excessivo de estrangeiros e uma nova visão estratégica que devolva à Itália seu status de potência.

Enquanto Haaland e seus companheiros preparam a Noruega para o futuro, a Itália parece presa no passado, com dirigentes que ainda se apoiam em glórias antigas.
O torcedor, por sua vez, continua a acreditar — mas sua paciência está no limite.


O preço da inação

O silêncio de Gravina ecoa mais alto que qualquer derrota. A ausência de respostas é, em si, uma confissão. O Calcio precisa reagir, e rápido.
Porque o futebol mundial não espera — e o tempo da Itália está acabando.

Se a Azzurra voltar a falhar, não haverá desculpas, nem máscaras de cera capazes de esconder o desastre. Será o fim de um ciclo e, talvez, de uma era. O futebol italiano precisa se reerguer, não por nostalgia, mas por sobrevivência.


Porque sem mudança, o que resta é apenas o eco distante de um passado glorioso que insiste em não morrer — mas que, a cada tropeço, morre um pouco mais.







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